O que realmente importa?

Ilustração: Paula Schlindwein

*Lilia Monteiro

O momento pandêmico tornou-se atípico como há 100 anos não se via, e muitos de nós, em função dessa circunstância, possivelmente, têm meditado sobre a própria jornada, sobre conhecer a si mesmos e sobre o que realmente importa.

Nosso esforço será sempre em busca de algo novo, de algo sensacional que nos aconteça e da felicidade. Não há mal algum, mas você já se perguntou por que as coisas nem sempre acontecem da maneira como planejamos? Por que nunca estamos totalmente satisfeitos? Ou felizes?

As perguntas chegam a nós e nos impulsionam à reflexão do verdadeiro sentido da existência ou o que deixamos de fazer para viver, “sem filtro”, a plenitude que nos é ofertada e que talvez não enxerguemos.

Olhar no espelho tornou-se o reconhecimento de que o tempo está fluindo muito mais depressa do que apreciaríamos e que as marcas da existência são implacáveis, inevitáveis. Junta-se a elas uma invisibilidade, aumentada perante o mundo, e indesejada, à medida que envelhecemos.

Nesse autoconhecimento, muitos de nós se veem frente a frente com uma sorrateira apatia que chega sem pedir licença, faz morada no corpo, acelera o coração, e dá lugar à ansiedade. Nesse caminho, a solidão se instala rapidamente, veleja por noites insones, intermináveis, e abre a porta para um turbilhão de pensamentos, dúvidas e incertezas.

Entender que contratempos existem e podem – ou não – ser passageiros, demanda força e uma dose generosa de esperança – tão bem guardada na caixa de pandora –, para que consigamos aproveitar cada segundo, cada movimento “como se não houvesse amanhã”.

Nossa existência, carregada de movimentos e de questionamentos, conflui com as nossas memórias e, num breve espaço de tempo, as boas lembranças nos absorvem. Recordamos de momentos únicos, como o de uma criança de quatro anos – esse serzinho incrível – que consegue lembrar-se de nós com carinho, e preocupa-se com o nosso bem-estar. Um gesto tão real, tão encorajador. Muito mais do que poderíamos esperar.

Ainda nesse breve espaço de tempo, fechamos os olhos por um instante e agradecemos nosso despertar de cada dia, que nos coloca em sintonia com a nossa fé. Agradecemos por aquela paixão que não esperávamos e que nos fez e faz tanto bem. Agradecemos pelos sonhos realizados, pelos filhos colocados no mundo, adultos que criaram asas, e como esse voo solo pode ser libertador. Agradecemos pelos netos que chegam – crescem na velocidade da luz – e fazem com que nos tornemos pessoas melhores. Nesse mesmo instante, sentimos uma pequena brisa que inunda a nossa alma e lembramos com saudade dos amores que partiram.

Continuamos a encarar o espelho, olhando para frente, mesmo recordando das inúmeras vezes quando pensamos em desistir, e nos foi (é) permitido o livre-arbítrio, responsável pelo nosso amadurecimento. Deixamos escapar um sorriso que simboliza o prazer da existência num mundo tão contraditório, mas que nos permite conquistar amigos que nos querem bem do jeito que somos.

Nesse conforto, a solidão dá sinais de que vai se afastar e pensamentos surgem sobre o que ainda podemos aproveitar e conquistar. É, então, que parafraseamos o poeta: “vivamos o que há pra viver, permitamo-nos”.

A oportunidade de fazermos parte do universo é agora, pois apesar dos tropeços no meio do caminho, os acertos superam e não mudaríamos uma vírgula dessa grande história que ainda conseguimos contar. Uma voz interior nos diz: “a vida é apaixonante, diversa, contraditória…” Quanta verdade!

Somos meros passageiros desse mundo e, provavelmente, não alcançaremos o máximo das viagens que precisamos ou desejamos, mas podemos, se quisermos, estar atentos às pessoas que circulam pelas diversas estações nas quais aportamos. Muitas têm nos acompanhado ao longo desse percurso. Muitas nem conhecemos, mas todas carecem do nosso gesto solidário, da nossa compaixão e da nossa escuta apaixonada. Quão importante é isso.

Finalmente, como num insight, compreendemos que existe algo maior, invisível aos olhos e que sempre estará por perto, dentro de nós, mesmo que insistamos, inconscientemente, em esquecer: o amor do universo por nós, responsável por estarmos aqui.

Esse cosmos nos ensina sobre a fé, sobre a esperança, sobre o amor, sobre a compaixão. Convida-nos a olharmos para o que de fato importa e que nos torna plenos. Esse cosmos nos sinaliza que a verdadeira felicidade sempre esteve – e está – ao nosso alcance. No bem que proporcionamos às pessoas, na nossa paz interior, e com todos ao nosso redor. A felicidade está, fundamentalmente, na nossa sintonia com a beleza desse universo que pertence a todos nós.

*Graduada em Serviço Social, mestre em Desenvolvimento Regional, especialista em Trabalho com crianças e adolescentes pela FURB. Autora dos livros: Diários de um baby (2017) lançado também em inglês e Os Diários de Luke Wygand (2020).

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Esse artigo foi originalmente e de forma exclusiva produzida para a 6ª edição da Revista Valente. Para ler o artigo na revista ou ouvir o áudio texto, CLIQUE AQUI.

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