Artigo|Saúde mental dos trabalhadores na pandemia do Covid-19

Por Renata Silva de Carvalho Chinelato e Isabella Perencin Vitti

Na atual pandemia do Covid-19, estudiosos e instituições têm voltado sua atenção  para o contexto de trabalho. Preocupações e discussões têm sido levantadas em relação aos impactos das condições laborais na saúde do trabalhador (Ministério Público do Trabalho, 2020). 

É nesse sentido que os fatores psicossociais laborais têm ganhado relevância científica. Eles são considerados fenômenos complexos e dizem respeito à relação entre variáveis psicológicas e sociais no contexto do trabalho e abarcam não apenas a subjetividade dos trabalhadores, mas também os aspectos sociais e econômicos do meio no qual o indivíduo está inserido (Efrom, Vazquez, & Hutz, 2020; Jacinto, Huck, Silva, & Tolfo, 2020). Tais fenômenos podem ser interpretados como de risco ou de proteção. 

Os riscos psicossociais ou interação negativa entre as características do trabalho e as características do trabalhador, são compreendidos como fontes diretas do estresse ocupacional que afetam a saúde dos trabalhadores e são criados pelo trabalho através de mecanismos sociais e psíquicos, podendo causar danos psicológicos, físicos e sociais aos indivíduos (Jacinto et al., 2020). Eles estão relacionados: a) ao excesso de exigências psicológicas do trabalho; b) a falta de controle, influência e desenvolvimento no trabalho; c) a falta de suporte de colegas e da liderança; d) as baixas recompensas do trabalho; e) a dupla jornada (trabalho-família) (OIT, 2013). Podemos observar, no contexto da pandemia do Covid-19, alguns exemplos de riscos psicossociais: a sobrecarga de trabalho, a jornada extensa, a pressão advinda de superiores e colegas de trabalho, a pressão advinda de superiores e colegas de trabalho, as demandas conflitantes no trabalho e em casa, as más condições de trabalho como, por exemplo, a falta de equipamento de proteção individual (EPI), entre outros. 

Os fatores de proteção, por sua vez, são responsáveis por neutralizarem os riscos, resultando em um balanceamento ótimo entre fenômenos contextuais e individuais. Tais fatores são favoráveis quando contribuem para o desenvolvimento da atividade laboral, para a qualidade de vida das pessoas, as relações de trabalho e a produtividade. Assim, os fatores protetivos estão associados à ideia de suporte social e de auxílio nas atividades laborais e também, ao bem-estar no trabalho, a comunicação saudável, práticas positivas de liderança e relações saudáveis entre os indivíduos no trabalho (Zanelli & Kanan, 2018). No contexto da pandemia, podemos observar que um grande número de pessoas tem demonstrado resiliência às perdas profundas (Horesh & Brown, 2020) e podem reinventar o ambiente de trabalho. Ademais, podem se deparar com um clima de trabalho favorável, em que as pessoas se ajudam mutuamente, variedade de tarefas e novas oportunidades de desenvolvimento na carreira.

Tendo em vista a importância dos fatores psicossociais no cotidiano laboral dos indivíduos, buscamos investigar fatores de risco e de proteção em trabalhadores brasileiros frente à pandemia de COVID-19. Justifica-se a realização desta investigação por representar uma ampliação dos estudos sobre tal fenômeno, o entendimento dos sentimentos, das cognições e dos comportamentos dos brasileiros em relação ao trabalho.

Em síntese, analisar os fatores de risco e proteção, presentes nas atividades laborais dos indivíduos brasileiros em meio a pandemia de Covid-19, permite observar as condições responsáveis pelo desencadeamento do estresse e do bem-estar no trabalho, tornando-se importante para a discussão sobre a saúde mental dos trabalhadores na atualidade.

Referências: 

Efrom, C., Vazquez, A. C. S., & Hutz, C. S. (2020). Avaliação de fatores psicossociais no trabalho. In: Hutz, C. S., Bandeira, D. R., Trentini, C. M., & Vazquez, A. C. S. (Eds.). Avaliação psicológica no contexto organizacional e do trabalho (pp. 19-37). Porto Alegre: Artmed.

Ganster, D. C., & Rosen, C. C. (2013). Work stress and employee health: A multidisciplinary review. Journal of Management, 39, 1085-1122. doi:10.1177/0149206313475815

Horesh, D., & Brown, A. D. (2020). Traumatic Stress in the Age of COVID-19: A Call to Close Critical Gaps and Adapt to New Realities. Psychological Trauma: Theory, Research, Practice, and Policy, 12(4), 331–335. doi: 10.1037/tra0000592

Jacinto, A., Huck, C. K., Silva, M. G. da., & Tolfo, S. da. R. (2020). Fenômenos psicossociais relacionados ao trabalho: promovendo saúde e monitorando riscos. In: Tolfo, S. da R. (Org). Gestão de Pessoas e Saúde Mental do Trabalhador: fundamentos e intervenções com base na Psicologia, pp. 203-220. Editora:Vetor.

Leka, S., & Cox, T., (2008). The European Framework for Psychosocial Risk Management. Nottingham: I-WHO publications. 

Ministério Público do Trabalho (2020). MPT já instaurou mais de 1700 inquéritos civis para apurar irregularidades trabalhistas relativas à Covid-19. Disponível em https://mpt.mp.br/pgt/noticias/

Organização Internacional do Trabalho (2013). La organización del trabajo y los riesgos psicosociales: una mirada de género. Hoja informativa 3. Disponível em: http://www.ilo.org/wcmsp5/groups/public/—americas/—ro-lima/—sro-san_jose/documents/publication/wcms_227402.pdf

Vitti é Graduanda em Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

Chinelato é professor do Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

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