Saúde mental do trabalhador e violência moral em pauta

Tarde do segundo dia do 9º Congresso SINJUSC teve mesa de debates sobre saúde do trabalhador e a realização de grupos de trabalho temáticos

Núbia Garcia | Jornalista

Debater a saúde dos trabalhadores, sejam eles públicos ou privados, é uma necessidade permanente. Sob este aspecto, a mesa de debate promovida durante o 9º Congresso Sinjusc, na tarde desta sexta-feira (27) abordou a “Saúde: liberalismo e gestão do sofrimento psíquico e assédio”.

O bate-papo foi mediado pela presidenta do projeto Fazendo Escola e secretária-geral do SINJUSC, Carolina Rodrigues Costa, e levou ao palco do congresso o a professora do departamento de Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Suzana Tolfo; a professora-adjunta da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e militante do movimento nacional pela luta antimanicomial, Rachel Gouveia Passos; e o presidente estadual da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil e psicólogo, Mateus Graoske.

Coordenador do projeto de saúde mental de combate a violência moral no trabalho junto ao SINJUSC desde 2018, Mateus destaca que assédio moral é uma forma de violência no trabalho, e que este tema deve ser abordado como uma questão coletiva e não apenas individual. Ele também falou sobre as rodas de conversa integrativas e o acompanhamento, feito com protocolo de atendimento, aos servidores e servidoras que sofrem assédio moral.

“Assédio moral impõe medo e faz produzir mais. Quando a gente fala em sofrimento psíquico gerado, é como se o neoliberalismo, de alguma forma, também gerisse o nosso sofrimento”, explica Mateus, destacando a importância de que se tenha o entendimento de que a violência moral no trabalho é uma ferramenta que concebe a possibilidade da hiperprodução, com o estabelecimento de metas audaciosas e, muitas vezes, impossíveis de serem cumpridas, se utilizando de um artifício muito usado para o controle dos trabalhadores: o medo.

“Ao impor metas e a competitividade nos locais de trabalho, com a imposição de hiperprodução, isso vai fazer os trabalhadores adoecerem. O sistema neoliberal aposta no sofrimento mental e psíquico do trabalhador que, com medo seja do desemprego ou da perseguição, vai produzir mais. Em busca da excelência do trabalho e da qualidade total, a gestão por metas se tornou uma das principais responsáveis pelo adoecimento mental dos trabalhadores. O gerenciamento por metas envolve ao menos quatro indicadores: produção, assiduidade, parâmetros de qualidade e redução de custos. O que se propaga com essa lógica é a individualização do trabalhador, a competitividade, a vigilância entre colegas de trabalho, quebrando dessa forma, o rompimento de um tecido de solidariedade. Ou seja, através do medo é formado um pacto de silêncio, os trabalhadores não falam sobre esse tema e, com o estabelecimento das metas, você cria um ambiente de trabalho competitivo e não mais colaborativo”, exemplifica.

MULHERES, SAÚDE MENTAL E TRABALHO |

A segunda palestrante da tarde foi a professora-adjunta da UFRJ Rachel Gouveia Passos, que definiu o congresso como um importante espaço de construção coletiva. Sob a temática “Mulheres, trabalho e saúde mental na pandemia”, ela ressaltou a necessidade de debate da saúde no trabalho, abrangendo a interseccionalidade entre gênero, raça e classe.

“Não se pode fragmentar uma leitura da realidade social, centralizando apenas em classe, homogeneizando as experiências dos trabalhadores, porque todos nós somos atravessados e nos constituímos enquanto indivíduos a partir de determinadas localizações sociais: mulheres, homens, não binaries, gays, lésbicas, travestis, transexuais, negros, indígenas, quilombolas. É fundamental começarmos a pensar a pluralidade da classe trabalhadora e como isso vem produzindo e acentuando o sofrimento e adoecimento psicossocial”, avalia.

Raquel explica que, por muito tempo, essa pluralidade foi desconsiderada e a classe trabalhadora foi avaliada de um ponto de vista homogêneo. “E o que tem a ver com as relações sociais o quanto que cada um de nós vai se constituindo enquanto indivíduo e ocupando determinados lugares sociais? Isso tem a ver com a forma como vou ser socializada enquanto mulher, enquanto negra, enquanto trabalhadora, enquanto sujeito. Existe um nó na sociedade, mas em alguns momentos, algumas experiências vão ser demarcadas por determinadas opressões de exploração, como o machismo, o racismo, a homofobia, etc., que afetam diretamente os trabalhadores.”

Militante do movimento nacional pela luta antimanicomial, Rachel acrescentou à pauta do dia a morte de Genivaldo de Jesus Santos que, na última semana, foi sufocado ao inalar gás lacrimogêneo jogado dentro de um veículo da Polícia Rodoviária Federal do Sergipe, em plena luz do dia, às margens da BR-101.

“O Genivaldo foi assassinado por uma intervenção equivocada da PRF do Sergipe. Um negro, trabalhador, com transtorno mental, que foi assassinado pela polícia. Temos neste caso duas penalizações, seja por ser negro, seja por ser louco. A penalização está colocada para existências que são consideradas desviantes, ainda que não seja no espaço que estamos enquanto trabalhadores (setor público), mas são trabalhadores que estão, cada vez mais, sendo destruídos e isso rebate diretamente sobre a nossa atuação porque somos operadores das políticas públicas, independentemente do local em que atuamos e dos cargos que a gente ocupa. Nós operamos o poder público e o poder público está em disputa e pode sim, perpetuar a lógica da destruição, da morte”, afirma.

AS MUDANÇAS NO MUNDO DO TRABALHO |

O encerramento da tarde de debates ficou por conta da professora do departamento de Psicologia da UFSC Suzana Tolfo. Em sua fala, Suzana definiu o trabalho no mundo capitalista, como uma categoria sociológica da sociedade. Ressaltou a relevância de se avaliar as mudanças que o mundo do trabalho vem passando e os impactos que isso causa na saúde dos trabalhadores.

“Historicamente nós somos fruto da importância do trabalho, especialmente relacionada ao emprego, e isso atravessa uma série de etos do trabalho, especialmente o etos do ponto de vista social, do status, do dever de trabalhar. E com essa importância que o trabalho tem na nossa vida, o que é pensar saúde? Parti do conceito bem amplo que eu acho fundamental: a gente tem leis e tem política. Somos trabalhadores públicos e temos o grande desafio de pensar a saúde do trabalhador, temos que pensar nos fatores determinantes, dentre eles, a alimentação, a moradia, o saneamento e o lazer”, completa.

PROGRAMAÇÃO |

Hoje ainda acontecem as dinâmicas em três grupos de trabalho, que farão uma análise e discussão sob a perspectiva da realidade do judiciário catarinense. O GT1 será um grupo focal, que abordará “Saúde mental e tecnologia. O GT2 tem como tema “Neoliberalismo e o ataque aos direitos da classe trabalhadora”. O GT3, por sua vez, aborda as “Condições remuneratórias e estruturais dos trabalhadores do judiciário de Santa Catarina.

Encerrando a programação do segundo dia de congresso, a cantora Verônica Kimura leva seu samba e o canto popular para o palco.

Um comentário

  1. No segundo painel do Ciclo Internacional “O Futuro do Trabalho”, o debate sera em torno  dos efeitos da pandemia sobre a saude dos trabalhadores. A conferencia “Assedios, violencias, saude e cuidado” vai analisar como essas questoes impactaram e seguem trazendo consequencias para a classe trabalhadora. 

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