Editorial|Quebrem seus espelhos, trabalhadores

Scarlett Rocha/Sindicatos dos Enfermeiros do DF)

No dia 04 de agosto de 2021, nós tivemos uma grande derrota com a aprovação da Reforma da Previdência, aqui em Santa Catarina. Perdemos nós, os servidores, junto com as nossas famílias. Perderam, também, todos aqueles trabalhadores que tinham, ou ainda têm, a expectativa/esperança de um dia ter direito à aposentadoria.

Nos documentos apresentados pelo Governo e nas falas dos deputados sobraram justificativas morais; faltaram avaliações, estimativas e projeções econômicas. Nada de novo. Debates moralizantes, recheados de mentiras e ressentimentos, têm sido instrumentos úteis para abafar o projeto econômico de pauperização geral dos trabalhadores.

 Trabalhador é aquela pessoa que, mesmo tendo algum conforto na vida, se parar de trabalhar perde rapidamente a capacidade de satisfazer as próprias necessidades materiais. Também aquela pessoa que precisa economizar vários anos para ter uma casa ou um negócio próprio. A trabalhadora até consegue, vez ou outra, viajar para o exterior, mas isso só se contar com a sorte de não ter que arcar com o tratamento de saúde de algum familiar adoecido. Trabalhadora é uma mulher que tem medo de morrer, porque sabe que, se isso acontecer, a família vai ficar desassistida.

Trabalhador o UBER, a confeiteira. Trabalhador o atendente de farmácia e o farmacêutico. Trabalhadora eu, servidora pública. O comerciante dono da loja de roupa ou de produtos naturais, a proprietária de uma marcenaria de médio porte ou de uma empresa de congelados: todos trabalhadores. O mesmo que a dentista e o arquiteto que precisam de pessoas com com alguma sobrinha de dinheiro pra poder buscar seus serviços.

Em maioria somos trabalhadores. São poucos os que tem dinheiro de sobra pra permanecer gerações, e mais gerações, sem erguer uma pluma, bebendo espumante e viajando por aí. Nós não nos enquadramos neste time. Definitivamente não estamos no lado dos ricos. Eles sabem disso; falta a nós o convencimento.

Em um país desigual e atrasado como o Brasil, é no Estado que encontramos o suporte para viver com alguma dignidade.  O acesso aos sistemas de saúde, educação e justiça e a uma rede de proteção e de direitos sociais básicos têm sido fundamentais para conseguirmos viver no “modo classe média”. Não se trata de mérito, mas do usufruto de uma série de políticas públicas dentro de uma configuração mínima de Estado Democrático de Direito. Enquanto isso, para aqueles trabalhadores que estão na base da pirâmide, considerados menos cidadãos e com uma experiência de democracia relativizada, o existir se endurece, a dignidade permanece ideia distante e o se manter-se vivo é quase um objetivo em si.

Para os outros, aqueles poucos, bem poucos, que têm recurso de sobra, o Estado é amplo. Oferece suas leis, suas honras e todas as benesses que as relações de poder podem garantir. Estão por cima da “carne-seca”, mas não são supremos. Eles dependem do nosso silêncio, do nosso individualismo, da nossa complacência e da ausência de consciência de classe – por hora os têm em doses generosas de nossa parte.

 Nós perdemos. Perdemos os nossos direitos. Perdemos os direitos que outras pessoas lutaram para que nós pudéssemos tê-los. Perdemos os direitos que seriam das gerações futuras, dos nossos filhos e das crianças quem andam por aí, de papo pro ar, sem imaginar o arremedo de País que estamos deixando. Nós perdemos e nós precisamos repetir isso mil vezes para entender o que perdemos e a fragilidade da nossa condição de trabalhadores.

 Este é um projeto de classe, de empobrecimento e de desprezo pelos trabalhadores. Minhas palavras são duras? Jamais serão o suficiente. Elas não podem dar conta da repugnância e do horror que sinto ao assistir a fome nas calçadas das cidades, a morte por abandono nos hospitais, a banalização da violência nas periferias. Minhas palavras não fazem cócegas nos opressores enquanto a realidade que eles nos impõem é cortante.

 Agora que cada um grite suas dores. Que cada um se olhe no espelho ensopado de lágrimas pra lavar, gota a gota, a frustração da derrota. Que este seja o último momento de solidão e de individualismo. E que depois dessa catarse cada um de nós se lembre dos companheiros e se encha de coragem e dignidade para enfrentar a luta de cabeça erguida, pois a roda de horrores ainda está a girar.

A Reforma Administrativa está a todo vapor e pode ser votada até final de agosto. Ela representa a volta dos cabides de empregos; gestão pública feita por interesses privados, favorecimentos e assédio; a precarização das condições de vida da população pela inexistência de serviços públicos.

Como você pretende lutar?

Um comentário

  1. Nos roubam descaradamente, imoralmente, dia após dia. Ou nos encaramos como classe trabalhadora e salvemos nossos sindicatos ou estamos fadados a reles cacos de espelho para ensanguentar os possos dos trabalhadores que nos seguem.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *