ARTIGO| A cor canela ocupa as cidades: afetos e povos indígenas no contexto urbano

Ilustração: Paula Schlindwein

*Flávia Roberta Busarello

De acordo com o Censo de 2010, existem, hoje, no país, 305 etnias indígenas, que falam 274 línguas. Ou seja, são várias cosmovisões e distintas formas de viver e existir. Ainda, segundo dados do IBGE, 42% da população indígena vive fora de Terras Indígenas, sendo 36% dela em áreas urbanas. Apesar desses dados, uma das memórias escolares mais comuns relacionadas ao Dia do Indígena são das crianças pintando ou montando um cocar, ou fazendo um desenho de uma oca. Nos filmes ou novelas, a imagem de um indígena genérico se mantém, o que consolida uma visão hegemônica sobre o indígena, não respeitando as pluridiversidades étnicas e cosmovisões existentes no país. Porém, neste texto, quero explorar um outro componente, por isso pergunto: o indígena deixa de ser indígena por estar fora de suas terras? A identidade é um rótulo que se perde por não corresponder à visão da ideologia dominante?

Em todo o país, as terras indígenas são alvo de projetos de infraestrutura governamental, mineração, desmatamento e/ou instauração de barragens, ações que têm como motivador a maior extração de recursos e reprodução do capital. Um dos casos em Santa Catarina é a Terra Indígena Xokleng/Laklãnõ, atingida pela Barragem Norte, que alagou as terras e modificou toda a estrutura social e comunitária, impactando também na agricultura e na pesca, o que inviabilizou a vida como conheciam até então. Ressalta-se que a barragem matou o rio, destruiu as casas e os locais associados às memórias dos povos indígenas Xokleng/Laklãnõ. Esses projetos afogam e destroem a cosmovisão desses povos, é uma morte em vida que sustenta e mantém o genocídio iniciado com a invasão do Brasil e que continua até hoje.

Com isso, há um processo de guetificação e invasão nas Terras Indígenas atacando as suas terras e afetando a forma como vivem. A partir dessa realidade, em busca dos seus sonhos, geralmente vinculados ao trabalho e ao estudo, ocorre a migração para as cidades. Portanto, o motivo da migração é também um efeito do processo de instauração desses projetos que invadem seus territórios, porque o impacto disso é até hoje vivido por esses povos – terras inférteis, estrutura social alterada, a impossibilidade da pesca ou, ainda, as constantes invasões às suas terras.

Ao migrar, os indígenas vivenciam outras afetações, pois aos olhos do Estado e para maioria da população, a identidade é estática e atrelada ao território, onde se espera um sujeito indígena com cocar, descalço e alheio aos artefatos tecnológicos – por isso não raro a reação irônica e espantada de “mas índio com celular?!” ou “índio com carro?!”. Consequência dessa cristalização estática da identidade indígena, acredita-se que o sujeito deixa de ser indígena por viver no contexto urbanizado.

Diante dessa realidade, tais populações sofrem pela subcidadania, marcada pela perda do direito a políticas públicas como indígena, e vivenciam, principalmente, o que Sawaia (2001) intitula de dialética inclusão/exclusão social. Esse movimento também gera o sofrimento ético-político, que, segundo Sawaia, é a “[…] dor que surge da situação social de ser tratado como inferior, subalterno, sem valor, apêndice inútil da sociedade” (SAWAIA, 2001, p. 104-105), e a dor da contínua negação da cidadania imposta socialmente que não possibilita a esses povos se apropriarem da produção material, cultural e social, e de expressar livremente seus desejos e afetos como povos indígenas. Portanto, a inviabilização do Estado para com o indígena é perversa, pois, nas Terras Indígenas, o Estado continua colonizando esse território com seus projetos de infraestrutura e, na cidade, o indígena não pode existir como tal, sendo invisibilizado. Isso é reforçado pela ideologia colonialista e colonizadora de que o indígena é somente indígena dentro dessas Terras.

A cidade é um local para se viver e uma dimensão de constituição humana, uma mediação para os sonhos e objetivos, sendo assim, ela não é constituída apenas por construções ou ruas: a cidade interage com seus sujeitos e eles com ela. Como afirma Italo Calvino, a cidade se repete, e no caso de algumas cidades de Santa Catarina, a repetição é o discurso do colonizador europeu que ocupa esse contexto. Temos que questionar: para quem são feitas essas cidades? Quem elas representam? Que histórias elas contam? E ao questionar que afetos são produzidos nesse local, compreendemos quem elas desejam que vivam aí.

O contexto urbano os inclui perversamente, afetando seus corpos e gerando afetos tristes como a vergonha, humilhação e saudades, que compõem o sofrimento ético-político. Na flutuação de ânimo de medo e esperança, par indissociável para o filósofo Spinoza, esses sujeitos migram para as cidades. Medo de não ter possibilidade de realizar seus sonhos ou de não ter emprego, e na esperança de conquistar um trabalho, estudo ou uma casa. Movimentam-se pelo seu bem-estar, mas encontram um espaço que não lhes permite a possibilidade de ser indígena.

Já a vergonha é um dos afetos que indicam a forma como a ideologia dominante narra a história do vencedor e demonstra a continuação de uma colonização, mas agora não mais com armas e, sim, por meio dos afetos. No caso dos indígenas, a ação em questão é ser indígena, é sua ancestralidade, história, povo e identidade, e os outros são os brancos, que, nesse caso, vivem nas cidades, que em sua maioria, no caso de Santa Catarina, são de ascendência europeia e colonizadores da região. Ruas, festas típicas, dialetos, tradições compõem toda uma estrutura social que mantém a memória daquele que colonizou o estado.

A colonização não acabou, pois os indígenas continuam sendo colonizados, nesse caso, de forma afetiva, por meio da inclusão perversa. Apesar disso, a cor canela existe e luta para perseverar na existência nas cidades de Santa Catarina. Precisamos nos manifestar e movimentar esses espaços para além da ideologia dominante, criar lugares de suspiros afetivos alegres que permitam que todos os povos vivam como sua singularidade.

*Formada em História e Psicologia pela Universidade Regional de Blumenau (FURB), mestra em Psicologia e doutoranda em Psicologia Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP) e fez doutorado sanduíche na Universidad de Salamanca (USAL).

PUBLICAÇÕES DA REVISTA VALENTE|

Esse artigo foi originalmente e de forma exclusiva produzida para a 6ª edição da Revista Valente. Para ler o artigo na revista ou ouvir o áudio texto, CLIQUE AQUI.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *