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Artigos Sinjusc
 
27/01/2009 Psiu! Garçom...a conta, por favor!
 
“Tudo que era sólido e estável se esfuma, tudo o que era sagrado é profanado e os homens são obrigados finalmente a encarar com serenidade suas condições de existência e suas relações recíprocas.” (Karl Marx e Friedrich Engels)

Os mais lúcidos advertiram ainda em 2007 – “a crise virá”. Ela começava a se desenhar, na forma de uma crise imobiliária nos EUA. Mas quem quer saber de catástrofes? Não faltaram vozes a defender que o sólido edifício do capitalismo mundial, com suas fundações assentadas sobre o Estado norte americano, não se abalaria. Mas o sólido não era tão sólido quanto parecia.

Segundo o Banco de Compensações Internacionais, o volume de movimentações da chamada “economia da sombra” (derivativos) alcançou no final de 2007 cerca de U$ 516 trilhões; dez vezes o PIB(Produto Interno Bruto) Mundial, estimado em U$ 50 trilhões. Ou seja, o mundo da especulação financeira não encontra a menor correspondência com o mundo da produção. Então, “quando ocorrem crises de superprodução, falência de empresas etc., descobre-se que esse capital não existia...”, alertou François Chesnais recentemente.

O mundo descobre-se em crise. Quem a provocou? Pouco importa saber. Estados e Governos batem-se para tentar conter seus efeitos. Os “pacotes” de enfrentamento da crise já consumiram alguns trilhões de dólares. Esses bem reais. Bancos e empresas que há bem pouco tempo apostavam alto no cassino da especulação exigem agora ajuda do Estado para se manterem.

Ao demandarem por recursos públicos querem chamar o povo a dividir a conta. Se parecem com aquele amigo malandro que, convidado para jantar num restaurante, pede os pratos mais caros e depois propõe um “divisão solidária” da conta. Mas a solidariedade humana nada tem a ver com as pretensões de salvamento que grandes multinacionais e bancos apresentam agora como a conta a ser paga por todos nós.

No caso do Brasil com um agravante que seria risível se não fosse trágico. O Banco Central, sob o comando do astuto Henrique Meireles mantém, em meio à crise, a maior taxa de juros reais do mundo. De um lado o socorro anti-crise, de outro a manutenção dos ganhos ao capital especulativo.

Mas longe dos capitais irreais, as conseqüências reais da crise capitalista mundial aparecem sob formas bem mais violentas: demissões; propostas de reduções salariais; ameaças; férias coletivas; endurecimento de negociações salariais e acordos coletivos; retomada das propostas de cortes de direitos dos trabalhadores; pressões para corte nos gastos públicos. Para além dos discursos, os fatos parecem dizer - não importa quem seja o responsável pela crise, a conta está sendo, e será, apresentada aos trabalhadores.

Trabalhadores de empresas privadas e trabalhadores (“servidores” - para quem preferir o termo) públicos achacados por quase duas décadas de neoliberalismo. Faz bem pouco tempo ouvíamos os arautos neoliberais proclamarem a supremacia do mercado, o peso exagerado de um Estado desnecessário, e o excesso de direitos trabalhistas como limite ao desenvolvimento. Inúmeros direitos conquistados ao longo de décadas desapareceram sob uma intensa pressão político-ideológica. O mercado ficou livre para fazer o que quisesse.

Nós, os trabalhadores públicos, amargamos mais de uma década de congelamento salarial. Sob as novas condições políticas do país, algumas coisas se alteraram nos últimos anos. Às lutas de resistência ao neoliberalismo, visando manter mínimos direitos, somaram-se lutas por conquistas ainda tímidas, mas que representaram avanços importantes no fortalecimento do Estado com a retomada das contratações via concurso público e a recuperação de salários em curso para grande parte das categorias. Uma luta de idas e vindas; avanços e recuos.

Agora, as propostas de saídas conservadoras para a crise, já apresentadas abertamente pelos noticiários da grande mídia, deixam claro sua intenção de impor novamente o retrocesso apontando para o corte de gastos públicos. Ao mesmo tempo que exigem recursos cada vez maiores para salvar capitais e capitalistas. Já podemos antever as dificuldades. E devemos nos preparar para elas.

O ano de 2009 coloca a todos nós grandes desafios, que devemos enfrentar com convicção, afirmando: NENHUM PASSO ATRÁS. Crises não são uma novidade. Mas aceitá-las como se elas fossem algo natural, sem se questionar sobre suas razões mais profundas e seus responsáveis, seria um equívoco que nós trabalhadores não podemos cometer. Preparemo-nos para as lutas desse e dos próximos anos.


Volnei Rosalen- Secretário de Estudos Sócio-Econômicos e Formação Sindical do Sinjusc


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